17 de nov de 2016

Pensata

Em termos de visibilidade, a legislação é muito clara: só se pode instalar películas para escurecer vidros que obedeçam os limites de transmitância luminosa. Que variam entre os vidros dianteiros e traseiros. E a fiscalização, só se o policial estiver portanto o luxímetro, capaz de apontar se o carro está ou não dentro dos limites previstos.
Em termos de emissão de ruídos, a legislação é muito clara: o veículo só pode emitir sons dentro de determinados limites estabelecidos em decibéis. Um determinado valor a um metro de distância, outro a sete metros. E o policial só pode autuar o motorista se portar um decibelímetro, que mede o nível de ruído.

É precária a fiscalização de transparência e de emissão de ruídos pois são raros os policiais equipados com os aparelhos que medem sua intensidade. E os automóveis rodam impunemente com as películas que escurecem (“insulfilm”) duas ou três vezes acima do permitido. Os vidros se tornam negros. O jornalista Bob Sharp bate nesta tecla há tempos e chama o filme de “saco de lixo”. É mesmo um lixo pois deixa o carro “uma gracinha” mas impede o motorista de ter mínima visibilidade noturna. E zero visibilidade se estiver chovendo à noite. Quanto aos ruídos, eles são emitidos por duas fontes: a descarga de onde se retiraram os abafadores (silenciadores) e os equipamentos de som que tornam o automóvel um verdadeiro trio elétrico.

Como no Brasil a legislação (principalmente a de trânsito) flutua ao sabor dos humores das nossas autoridades, os policiais acabam de receber autorização para autuar o motorista que abusar da música de forma a ser ouvido fora do automóvel. Ou seja, um critério desprovido de qualquer padrão científico. Se o “guardinha” tiver ouvido apurado e ouvir o que seu coleguinha não ouviu, pode autuar o carro. Mesmo que não tenha sensibilidade auditiva suficiente, pode também aplicar o castigo desde que não tenha simpatizado com o motorista.

E, assim, de incoerência em incoerência, nossas autoridades e nossos legisladores vão demonstrando seu profundo desprezo pela segurança veicular, pelas regras mínimas de harmonia e convivência entre motoristas, pedestres e sociedade.

Apesar de publicado há mais de vinte anos, o governo faz vista grossa para a exigência do código de trânsito de se realizar a inspeção veicular que fiscaliza a segurança e as emissões de gases e ruídos. A inspeção é importante e existe em todo o mundo, mas o código chega a ser hilário e comprova ser distante da realidade ao estabelecer penalidades surrealistas e anacrônicas. Como o carro que para na rua por falta de combustível: foi desleixo do motorista, ou defeito do marcador? Ou quem sabe um entupimento provocado pelo combustível não fiscalizado pelo governo?’




Texto de Boris Feldman

fonte:http://hojeemdia.com.br/opini%C3%A3o/colunas/boris-feldman-1.335048/trio-el%C3%A9trico-saco-de-lixo-1.425418

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