23 de jun de 2016

Pensata

Brasil atirou no que viu...
O Brasil é o único país do mundo que proíbe o motor diesel nos automóveis. O governo teve seus motivos, no passado, para restringi-lo a caminhões, ônibus, tratores e jipes. Foi para limitar sua importação num país carente de dólares, pois nossas refinarias não tem capacidade para suprir a demanda. Além disso, ao reduzir seus impostos, a idéia era baratear o custo do transporte de cargas e passageiros, não dos automóveis. E era – na época - um combustível ainda mais sujo, extremamente poluente. Com uma enorme vantagem em relação à gasolina: mais eficiente, além de emitir menos CO2, o gás que provoca o efeito estufa.



Novas tecnologias aperfeiçoaram os motores diesel. Deixaram de ser fumacentos, lerdos, barulhentos e trepidantes e sua aplicação na frota europeia de automóveis foi crescendo: de 10% nos anos 90, chegou a 53% em 2014. O próprio diesel tornou-se mais “limpo” com a redução do teor de enxofre em todo o mundo, inclusive no Brasil.

O brasileiro dirige carros a diesel na Europa e protesta contra sua proibição, pois nem percebe que está ao volante de um motor com esta motorização, tão surpreendente seu desempenho. Além disso, sua maior eficiência térmica resulta num consumo menor que o motor a gasolina. Se existe no mundo inteiro, por quê proibí-lo aqui?

Entretanto, houve uma decisiva alteração do panorama nos últimos anos. Em primeiro lugar, pelo desenvolvimento dos motores a gasolina, contemplados com turbinas, injeção direta, comandos variáveis, redução de cilindros e cilindrada e outras tecnologias que aumentaram sensivelmente sua eficiência. Os híbridos, por exemplo, concorrem com os diesel em consumo.

Em segundo lugar, o Protocolo de Kyoto de 1997 estimulou países europeus a incentivar o uso do diesel no automóvel devido à baixa emissão de CO2, menor que a dos motores a gasolina. Impostos do combustível e licenciamento dos veículos foram reduzidos na maioria deles.

Entretanto, o motor diesel emite elevados teores de NOx, HC e Material Particulado (MP, aquele bem fininho que vai direto aos pulmões...), o que exige filtragem de custos elevados para reduzi-los no escapamento. Tão elevados que resultaram no vexame do “dieselgate” : Volkswagen, Mitsubishi, Suzuki (e outras, possivelmente...) criaram dispositivos para trapacear nos testes de emissões.

A Comunidade Européia está revendo sua postura e anunciando medidas para desestimular o diesel nos automóveis. Nos EUA existe uma reação natural contra o combustível que teve sua imagem prejudicada nos anos 80 com uma infinidade de problemas na linha Oldsmobile lançada com motores diesel.

Exatamente quando se registra uma reversão do quadro na Europa, o Congresso Nacional está analisando um projeto de lei que permitiria sua utilização em automóveis. Medida que chega atrasada e na contramão da nossa história pois estamos em pleno desenvolvimento de motores flex. O etanol pode ter seus problemas, mas é muitas vezes mais limpo que o diesel. Renovável e incentivador de empregos no campo.

A engenharia da nossa indústria automobilística está debruçada, no momento, sobre dezenas de projetos (estimulada pelo Inovar Auto) para aumentar a eficiência do carro flex. Além disso, pelo menos duas refinarias que seriam construídas no Nordeste com perfil de refino voltado ao diesel deram no que deram... e continuamos importando quase 20% de sua demanda.

O Brasil navegou contra a maré durante dezenas de anos, ao proibir o diesel em automóveis. Atirou no que viu, acertou o que não viu. Será que vai reverter sua postura exatamente quando o mundo dá uma guinada de 180º?

Texte de Boris Feldman
Fonte http://hojeemdia.com.br/opini%C3%A3o/colunas/boris-feldman-1.335048/brasil-atirou-no-que-viu-1.392358

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